Glorificação de Maria
Duas grandes verdades teológicas marcam o decurso da vida da Mãe de Jesus: sua Imaculada Conceição, que nos leva ao primeiro momento de sua existência temporal, e sua Assunção aos céus, que nos conduz a sua situação final. Do tempo à eternidade estes dois dogmas nos envolvem nas grandezas marianas, cuja base é sua maternidade divina. O senso da imortalidade perpassa a mensagem bíblica desde o Antigo Testamento, pois o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob não é Deus dos mortos, mas dos vivos (Mc 12,26-27). A ressurreição é uma tese irrecusável da revelação divina. Trata-se de um anseio profundo do ser humano que Deus jamais frustraria. Nem entenderíamos a Sabedoria Infinita se Ela viesse a aniquilar para sempre a união da alma e do corpo, dado que não apenas foi solene a criação do homem, como também este apareceu como imagem e semelhança de Deus.
Ora, pessoa humana é uma alma que informa um corpo e um corpo informado pela alma. É certo que a rebeldia do ser racional iria transtornar os planos do Ser Supremo e a morte, separação da alma e do corpo, seria um justo castigo pela prevaricação dos representantes da humana linhagem. Nunca se pode esquecer que o Redentor colocou como uma de suas promessas a ressurreição dos mortos. Os corpos serão, um dia, associados à glória da alma. Haverá uma sublimação final da carne, o que é perfeitamente lógico, já que o corpo coopera, decisivamente, para a entrada na felicidade eterna do céu ou na condenação perene do inferno. São Paulo instruirá sobre a ressurreição (1 Cor 15,35-37). No tempo trazemos em nós a imagem do homem adâmico que se revoltou contra Deus, mas chegará o momento feliz em que o homem será perenemente animado pela alma regenerada pelo novo Adão, Jesus Cristo. A ressurreição de Jesus é o princípio, a garantia e o modelo da nossa ressurreição. Ora, se Cristo ressuscitou dos mortos, está vivo, será impossível não pensar na Virgem, que Lhe havendo dado um corpo sempre glorioso em potência, teve com a carne sacrossanta do Filho uma afinidade íntima profunda. Maria, Mãe do Salvador, seria a primeira a receber os efeitos maravilhosos da redenção e, entre eles, a ressurreição antecipada. Cumpre, pois, firmar que a crença na assunção de Maria não se funda num fato transmitido pela tradição. É sintomático nunca se ter notícia do túmulo de Nossa Senhora, mas é na sua maternidade divina que buscamos um dos argumentos bíblicos da definição infalível de 1º de novembro de 1950. Deus, o Legislador, que fez do respeito devido aos pais uma das condições da salvação eterna, não deixaria o corpo de sua mãe entregue à decomposição. Ela nasceu, além disto, sem a mancha do pecado, toda santa e imaculada, não tinha por que sofrer as consequências da desobediência de nossos primeiros pais e, com Jesus, pela força do vencedor de satã, Ela venceria também a morte. Esposa mística do Espírito Santo, merecia ser a primeira dentre os viventes a conhecer a glorificação final dos santos. Ela jamais esteve sujeita ao estranho intervalo que separa o instante da morte, em que se escapa ao tempo, daquele em que se reencontra a sua plenitude para a Eternidade. Imitou a Jesus, morrendo, mas sua morte foi qual suave sono do qual logo despertou para receber, na Jerusalém celeste, as homenagens de toda a corte celeste. Alegres, professamos que a reintegração da criação em Deus, que já está terminada no seu chefe Jesus, também o está para a Mãe de Jesus. A glorificação de Maria é, deste modo, um apelo vibrante a que se vivam verdades que nunca podem ser esquecidas. No céu Ela aguarda os que vivem intensamente o Evangelho. Reintegrada, está Ela no porto final à espera de seus filhos espirituais. Sua situação na glória não a coloca longe de nós, mas a aproxima ainda mais de nós, dado que sua maternidade de graça se transformou numa maternidade de glória da qual quer que todos partilhemos.
Texto: Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
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